quarta-feira, fevereiro 05, 2003

A questão política do momento não se dá em torno da situação partidária brasileira, mas diz respeito ao destino dos chamados radicais do PT, cujos principais líderes seriam as Senadoras Heloísa Helena e Ana Júlia, e os deputados Babá, Luciana Genro (filho do Tarso) e o nosso bom Lindberg.

O problema é que estes luminares da inteligência nacional pregam que o governo Lula adote desde já medidas mais radicalmente anti-capitalistas, que se adequem mais ao discurso de oposição do PT. São por exemplo contra o controle orçamentário, são contra a manutenção dos acertos internacionais, são contra o aumento dos juros, são contra o câmbio flutuante, são contra a nomeação de Henrique Meirelles e contra a manutenção da Tereza Grossi, na presidência e na diretoria do BC, respectivamente.

Claro que, nesta história toda, os radicais são mais coerentes do que o resto do PT que agora adota exatamente a mesma política do governo anterior, tanto na parte econômica, como aliás no demais, principalmente na saúde e na educação. Mas se são mais coerentes são também os mais burros, na minha opinião.

São burros porque não percebem que essa manutenção da política FHC não é mais do que um estágio transitório dentro de um contexto de evolução que supostamente levará ao mesmo e exato lugar que eles pretendem. O PT tem se mostrado tão pragmático quanto o PFL, sem qualquer pudor em mudar sua atitute conforme a situação, seja para apoiar José Sarney para a presidência do Senado, seja para cogitar a indicação de Milton Steinbruch para a DRT/RJ, seja para fechar uma aliança oportunista com um industrial evangélico.

A diferença entre Heloísa Helena e o Palocci não é outra senão de meios para a implementação do programa petista em sua plenitude. Um programa com o qual ambos concordam em sua inteireza. Nesse sentido, portanto Heloísa Helena não é nem mais nem menos radical do que Palocci, que, aliás, como Prefeito de Ribeirão Preto, abriu exatamente há 1 ano, um comitê de apoio às FARC.

Só que Palocci é muito mais inteligente. Sabe que a adoção agora de medidas que em tese estariam mais de acordo com o ideário petista seriam absolutamente contraproducentes.

Realmente, admito que, para quem preza a honestidade, principalmente aquela honestidade consigo próprio, deve ser muito difícil ter de fazer os contorcionismos ideológicos para justificar as medidas que o PT no governo tem adotado, idênticas àquelas que ele irresponsavelmente criticava.

quinta-feira, janeiro 30, 2003

No romance 1984, de George Owell, a "Novilíngua" (newspeek) é um expediente através do qual as coisas da vida, mesmo as mais óbvias, passam a ter uma designação ideológica, com um objetivo deliberadamente propagandístico. Tudo vira slogam.
É o que ocorre em algum país caribenho cujo nome me escapa onde quem quer que divirja do governo é chamado de "contra-revolucionário". Assim, a mera divergência de opinião, a mera oposição política passa a ser considerada uma atividade contrária à sociedade e portanto punível não raro com a prisão, e às vezes com a morte. O movimento do "politicamente correto" é baseado nessa mesma idéia.

Bem, para justificar a presença do nosso bom Juventino - se pelo menos tivessem chamado a Juma ! - num Conselho de Segurança Alimentar, o governo declarou, conforme a reportagem do Globo de hoje:


"A nomeação do ator Marcos Winter mostra o desejo do governo de investir na imagem de pessoas conhecidas para atrair a atenção da sociedade para o Fome Zero."


Novilíngua pura !!! "investir na imagem de pessoas conhecidas para atrair a atenção da sociedade" é eufemismo de marketing. Só que o governo petista não quer assumir que o Fome Zero é mais um programa de marketing, e, na minha opinião, demagógico, do que qualquer outra coisa. Então ao invés de falar que Juventino vai fazer propaganda, a imprensa chapa-branca se esmera na elaboração de expressões novilinguísticas.

O mundo está infestado desta babaquice. Só que no Brasil a coisa é agravada pelo fato de que não há um outro lado que, no que seria um saudável contra-ponto, denuncie e aponte o avanço da novilíngua entre nós.
Enfim, cada dia que passa ficamos mais parecidos com aquela ilha caribenha. Qual é mesmo o nome dela ???
Deu no Globo hoje que farão parte do conselho de segurança alimentar, o tal do Consea (que aliás fora criado por Itamar Franco), além do "Bispo" Crivella, ninguém mais ninguém menos que Marcos Winter.....pera lá, Marcos Winter, o inesquecível Juventino ???? Sim, ele mesmo.
Não me espantará se chamarem também Maria Marruá, Maria Bruaca, e, para a presidência, o Velho do Rio.
Schuttler fez questão de espanar a zebra para longe da Oceania. Vitória fácil e previsível do incrível Agassi no Aus Open. O Sebastião faz questão de dar os parabéns ao maior jogador de tênis em atividade.

quinta-feira, janeiro 23, 2003

O Australia Open é realmente um torneio esquisito. Só num tornei muito esquisito é que Wayne Ferreira vai tão longe. Isso sem contar o jogo entre Roddick e Younes que terminou o quinto set num 21 X 19. O Agassi só não ganha - e fácil - se a zebra cruzar forte pela oceania.

sexta-feira, janeiro 17, 2003

Ética não é só "não roubar", "não desviar dinheiro público". Ética é, também, e talvez principalmente, COERÊNCIA. Ética é agir conforme aquilo que se prega, é realizar os atos que estejam conformes com os valores maiores defendidos.
O PT, durante a reforma da previdência proposta pelo Governo FHC, não cansou de acusá-lo de querer impor uma reforma neoliberal e equivocada. O PT inteiro foi raivosamente contra todas, repito todas as propostas da reforma proposta.
Hoje, entretanto, a reforma da previdência proposta pelo PT É MAIS RADICAL QUE A DO FHC. Vejam que o PT está querendo "discutir" a questão do "direito adquirido" (sic) - coisa que nem no seu sonho mais delirante FHC pensou em fazer.
É antiético o atual governo do PT pois age nas antípodas daquilo que antes pregou. Não se trata só de se acomodar ao fato de ser governo, fazendo as necessárias concessões à realidade da vida, mas sim de admitir que cada palavra que o PT pronunciou antes da posse era basicamente uma mentira estratégica.
A propósito, mais uma excelente apreciação de Percival Puggina:

"FALTOU TINTA NA CANETA?

O mundo simplesmente veio abaixo quando Fernando Henrique encaminhou ao Congresso Nacional o seu projeto de reforma da Previdência, cujos sete pontos fundamentais eram alterar a idade mínima para aposentadoria, substituir o tempo de serviço pelo tempo de contribuição, instituir a previdência complementar para futuros servidores, quebrar a integralidade, eliminar a paridade entre ativos e inativos, cobrar contribuição de aposentados e pensionistas e elevar as alíquotas.

O governo conseguiu aprovar apenas os três primeiros itens, sob uma verdadeira flagelação moral da bancada governista. O país foi inundado de outdoors e as bases eleitorais dos parlamentares, solapadas por panfletos e peças publicitárias que faziam lembrar cartazes de faroeste: a cara do bandido e, embaixo, o clássico “vivo ou morto”. Eram, todos, negocistas, malvados, corrompidos pelas políticas neoliberais de Fernando Henrique Cardoso. Ainda há bem poucos dias, durante a campanha eleitoral, o próprio governador Germano Rigotto foi alvo de uma verdadeira pancadaria petista por tais ou quais votos que teria dado quando essas matérias foram à deliberação do plenário.

Eis que o ministro Berzoini anuncia as bases da reforma pretendida pelo governo Lula. Pretende o governo, entre outras coisas: equiparar e unificar as regras de concessão de benefícios para a iniciativa pública e privada, quebrar a paridade das atuais aposentadorias, unificar todo o sistema no INSS, fixar em R$ 2 mil o teto de todas as aposentadorias. Ou seja, novas restrições.

Mas escuta aqui! Os “crimes contra o trabalhador” praticados no governo anterior não vão ser corrigidos? Lula e seu partido têm nas mãos, agora, o instituto da medida provisória, a caneta do poder legítimo, a capacidade de encaminhar ao Congresso o que bem entenderem, sem vício de origem. Por que não o fazem? Por que não remetem, com urgência, uma mensagem revogando as alterações introduzidas por FHC? Por que não determinam o retorno ao regime anterior? Por que não recuam a idade de aposentadoria aos critérios e aos patamares antigos?

Parece que sobrava tinta na gráfica dos panfletos, saliva para os discursos e, agora, faltou tinta na caneta."







sexta-feira, janeiro 10, 2003

A prova de que a "fome" no Brasil não é nada do que se alardeava na campanha presidencial (números estrambólicos de 44 ou 54 milhões !!!) está na própria caravana do Governo Lula.
Afinal de contas, se para ver miséria o Presidente tem que ir no cafundó do Piauí, não deve ser porque os 44 milhões de miseráveis estejam lá. Claro que há miséria, mas o problema da fome no Brasil nem de longe se compara por exemplo à de alguns países africanos. O problema no Brasil é de subnutrição e mesmo assim em alguns bolsões específicos.
A propósito, indago o que ocorreria se fosse o Collor a fazer essa caravana. "Demagógico" seria o xingamento mais ligth. E se o mesmo Collor resolvesse distribuir comida através de programas assistenciais ?? será que o PT não iria correndo criticar o programa alegando que "mais importante que dar o peixe é dar a vara para pescar o peixe" ??
Lembro que a esquerda inteira - menos o PDT, verdade seja dita - sempre criticou os programas assistencialistas de distribuição de comida sob o prisma de que são meros paliativos e não passavam de formas de política populistas. O mesmo PT que critica do restaurante popular do Garotinho, elabora um programa de combate à fome que não passa de uma variação dos inúmeros programas assistencialistas existentes. Impressionante como a verdade para eles muda com a cor da camisa de quem vai dar o prato de comida. E vai você querer cobrar coerência dessa gente.....

segunda-feira, janeiro 06, 2003

Deixar de comprar jatos militares para destinar o dinheiro ao combate à fome. Que maravilha !! À falta de Tom Cruise nacional que pudesse empolgar um eventual Top Gun tupiniquim (*), até eu achei correta a decisão. Mas a farsa foi desmascarada pelo nosso bom colaborador Peixe 5, num minucioso trabalho de pesquisa, que demonstra o quão as manchetes de jornal são distantes da realidade dos fatos. Conforme me explicou com exclusividade nosso repórter, a decisão do governo Lula a respeito do caso é no mínimo temerária.

"Ocorre que não existem esses 760 milhões para serem deslocados da compra de jatos para um projeto contra a fome", afirmou Peixoto. "Na verdade", continua, "a compra dos jatos está condicionada a um financiamento externo que o próprio comprador tem que obter, e cuja primeira parcela somente seria paga em dois anos".
"E mais: até a assinatura final do contrato são 22 passos que se tem que ser dados, passando pelos mais rigorosos controles do Tribunal de Contas do Ministério Público e do Senado". Conclui nosso rotundo colaborador: "anunciar que o dinheiro dos Jatos foi parar no combate à fome ou é burrice ou é despreparo."


Agora, falando sério: se você bateu palmas para a decisão luliânica, trate de, agora, humildemente, voltar atrás porque apesar do tom de ironia, a história é a pura verdade. Tudo bem, o novo governo está muito no começo, e, afinal de contas, o cara não tem a mínima idéia do que é governar (seja um país, seja uma barraca de pipocas), e não vamos ainda cair de pau em cima do Presidente por conta disso. Fica só o registro (a) de mais uma trapalhada (**) e (b) do escancaramento do apoio da grande imprensa do atual governo, sem um mínimo de distanciamento crítico, coisa que, aliás, não é boa para a democracia do país.
Boa semana.
NO


(*) não teriamos nem mesmo uma música tema melhor que Take My Breath Away...talvez "Como uma Deusa...." não sei não.
(**) mas o festival de trapalhadas ainda não parou: agora o governo não vai mais conhecer aquela cidade miserável do Piauí. Chegaram à conclusão que era muito longe (são mesmo uns gênios !!!).

quinta-feira, janeiro 02, 2003

Esse negócio de blog tem, no meu caso, algo de especialmente esquizofrênico. Afinal, sem falsa modéstia, tenho claro que eu mesmo sou o único leitor fiel do meu blog. Logo eu sou o meu único público. Sensacional, não ? Sendo assim, e depois de algumas semanas paradas, retomo minhas notas, na sincera esperança de agradar a mim mesmo.
Meio patética essa posse do Lula. Do terno mal cortado ao Rolls-Royce enguiçado, dos erros de concordância aos erros de protocolo, tudo meio ridículo. E esse pessoal da esquerda, que adora bancar uma posição moderninha, que adora espalhar sua fixação pelo "progresso", quis mesmo era andar de Rolls-Royce, símbolo máximo da aristocracia e da "exclusão" social (erghhhh, detesto essa palavra).
Tem até graça: a imprensa inteira repete o refrão petista de que, com a eleição do Lula é que a democracia brasileira foi consolidada. Que bobagem. Miriam Leitão hoje já esculhambou esse negócio. Mas não sei porque neguinho se espanta com isso. O petismo, nisso que é uma herança perfeita do marxismo, não se considera um partido como os outros. Eles se consideram A história encarnada, de modo que tudo o que tiver vindo antes nada representa, ou representa somente uma manifestação menor e imperfeita daquilo que eles próprios são em sua plenitude. É a gênese do totalitarismo milenarista: diante da verdade histórica encarnada - e com o detalhe significativo de que o "encarnado" era um operário, fetiche supremo da esquerda - todos os demais, todo o resto ou é reação contrária de insatisfeitos com a promessa da redenção final ou é meramente descartável.
Mas a Miriam Leitão poderia ter dito certas coisas antes. Ontem ou anteontem, não me lembro, ela veio elogiando a Ana Tavares, a assessora de impresa de FHC, e criticando o governo petista do Rio Grande que perseguia jornalistas. Caramba, como é que só agora ela diz isso ?! Por que diante de tão grave problema - perseguição de colegas seus jornalistas - ela ficou calada ?!
Miriam Leitão é o caso de uma inteligência que vai descobrindo que a verdade é menos de esquerda do que ela gostaria, e, malgrado consiga caminhar alguns passos em sua direção, parece que sente uma certa vergonha de renegar os absurdos que seus tantos colegas idolatram. Falta-lhe coragem para dar um passo decisivo.
E lá vamos nós nesse 2003 que promete....é como dizia David Cronemberg através do cientista Seth Brundle: BE AFRAID...BE VERY AFRAID !!!